
Aproximo da roda de meninas que segredam na mesa da lanchonete. A loirinha de olhos esplendidamente azuis explica o plano:
- Apagaremos as luzes da sala, assistiremos aos filmes de terror que vou levar e, depois, vamos ficar com tanto medo, mas com tanto medo, que teremos que dormir todas na cama da mãe da Natália.Sou eu quem terei a cama invadida numa noite de sexta-feira durante a festa do pijama que a Ana Clara planeja com a aprovação unânime das seis amigas, entre elas, minha filha Natália.
A princípio parece estranho que elas desejem se reunir para divertir e que o melhor da festa seja ter medo e correr para a cama de um adulto. Contudo, atualizo minha bibliografia em psicologia infantil e descubro que, em determinados momentos da vida, a exemplo, da infância e da adolescência, o medo pode ser tão excitante e motivador quanto o sorvete com cobertura de chocolate.
Pergunte a uma criança de três anos quais são suas histórias prediletas? Duvido que ela não citará Chapeuzinho Vermelho ou Os Três Porquinhos.
E, acreditem! Elas podem não admitir, mas, no fundo, adora
m o lobo-mau, mesmo que percam o sono depois.
m o lobo-mau, mesmo que percam o sono depois.Esse misto de amor e ódio pelos vilões acompanha a humanidade de tal forma que está expresso nas mais consagradas peças da literatura mundial. Na adolescência, o paradoxo torna-se ainda mais importante porque representa também desafio pessoal e rebeldia contra todos os padrões impostos até então.
Assim como é repelente natural para a maioria dos pais, o perigo é que atrai os jovens. Na verdade, não o encaram como verdadeira ameaça à sua integridade física e emocional.
Cheios de vontade de provar que podem caminhar sozinhos, acertar nas escolhas e sair ilesos, principalmente os adolescentes têm enorme capacidade de negligenciar qualquer avaliação de riscos.
Medir e ponderar ainda não fazem parte de suas estratégias de vida, o que é agravado pela presença persistente da frase "Preciso provar que posso!"
E é com essa vontade que se atiram, com toda impulsividade que lhes é peculiar na internet, um mundo virtual de possibilidades - e de lobos!
As meninas, que no passado foram mais contidas pelos padrões sociais, hoje vão atrás, com a cara, a coragem e o medo. Este, não deixam transparecer, como se cantassem "Quem tem medo do lobo-mau? Quem tem medo do lobo-mau?". Elas não são mais frágeis, mas certamente mais visadas por lobos experientes, portanto, capazes de maldades imensuráveis.
Agora que já sabemos que elas também têm medo da internet, de serem vítimas de sequestros ou estupros, nada mais oportuno do que as escolas e os pais se reunirem para discutir como vão treiná-las, torná-las realmente fortes e preparadas para passear, a qualquer hora do dia e da noite pela grande estrada da informação.
Isto porque não vai dar para trancar o computador ou cortar a assinatura com o provedor de internet. Medidas como essas podem até adiar o problema, mas, a qualquer momento, sem que os adultos saibam, elas vão entrar novamente pelo "caminho deserto", seja na lan house ou na casa da amiga, e, nessa hora, o lobo-mau estará bem perto, à espreita de meninas naturalmente sedentas de perigos e novidades e, pior, muito mais frágeis do que as outras que os dispensaram na curva anterior. (Nalu Saad – extraído do Hoje em Dia)
Nenhum comentário:
Postar um comentário