segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Acaso ou destino?


Surpreendidos por acontecimentos enigmáticos, questionamos se a vida é uma sucessão de fatos aleatórios ou se somos marionetes nas mãos do destino. Certezas a esse respeito não existem. No entanto, o debate nos faz pensar sobre a importância de fazermos boas escolhas. Texto • Raphaela de Campos Mello

A vida é cheia de coincidências.

Sonhamos com um conhecido e, no dia seguinte, o encontramos na fila do banco. Procuramos um novo emprego e, por incrível que pareça, descobrimos numa festa que o amigo do amigo precisa de uma funcionária com o nosso perfil. Há, ainda, alguns felizardos que, por se atrasarem dez minutos, perdem o embarque e se safam de um acidente aéreo fatal. Mistérios. Muitos mistérios. Poderia preencher as páginas desta reportagem apenas com exemplos desse tipo. No entanto, o objetivo aqui é investigar se as chamadas coincidências revelam a interferência do destino em nossa biografia ou se os eventos da vida, mesmo aqueles mais enigmáticos, são frutos do acaso e ponto final.
Segundo a filósofa e terapeuta existencial Dulce Critelli, coordenadora do Existentia – Centro de Orientação e Estudos da Condição Humana –, em São Paulo, essa discussão tem como pano de fundo uma temática fundamental da existência: a liberdade humana. “Quando questionamos se somos vítimas do acaso ou não, estamos sondando se o homem realmente tem poder sobre a vida, ou seja, se é livre para construir sua história”, ela observa.
A resposta depende das ferramentas que usamos para decifrar o mundo. A ciência se vale de lentes empíricas. Para a física, nenhum fenômeno é aleatório, e sim movido por alguma força, como a gravitacional, por exemplo. “Sabemos que leis testadas e comprovadas moldam o Universo. Portanto, as interações na natureza são manifestações dessas forças”, afirma Adilson de Oliveira, professor do Departamento de Física da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Outro recurso utilizado por esse campo é a estatística. “Em face de problemas complexos e cercados de inúmeros fatores externos, como a questão climática, trabalhamos com probabilidades, uma maneira de descrever estatisticamente os fenômenos e de fazer previsões”, acrescenta.
Para ilustrar esse saber, o físico cita o seguinte exemplo: se jogarmos um tabuleiro cheio de letras para o alto, é possível que o emaranhado vire um texto coerente ao cair no chão? “Há uma chance entre todas as combinações possíveis de que isso aconteça. Portanto, é provável, mas difícil de prever.” Logo, se o extraordinário episódio ocorrer, você não estará diante de uma coincidência, e sim de uma probabilidade que se concretizou, conforme o cálculo estatístico havia apontado.
“As coisas não estão separadas. O mundo interno é tão real quanto o externo”, Cristina Balieiro, psicoterapeuta junguiana.

Dimensão simbólica

Essa é apenas uma maneira de perceber o mundo. Existem outras tantas mais simbólicas e, portanto, menos racionais. Ciente disso, o psiquiatra suíço Carl G. Jung (1875-1961), fundador da psicologia analítica, farejou algo a mais por trás de determinadas coincidências. “Certa vez, num atendimento, uma paciente de Jung contava-lhe que havia sonhado com um escaravelho. E, em seguida, o tal inseto apareceu na janela da sala”, conta Cristina Balieiro, psicoterapeuta junguiana e coautora de O Feminino e o Sagrado – Mulheres na Jornada do Herói (ed. Ágora), junto com Beatriz Del Picchia.
Depois de observar por décadas episódios semelhantes, o psiquiatra cunhou o termo sincronicidade. “O conceito se aplica a fenômenos que não possuem uma relação causal, mas sincrônica. No famoso caso do escaravelho, o animal não apareceu porque fora mencionado na conversa. No entanto, por alguma razão, ele apareceu”, pondera Cristina. O motivo da aparição, segundo ela, é puramente simbólico. “Trata-se de uma visão sutil e carregada de significados que escapam à racionalidade, mas que fazem todo sentido para a psiquê, que se expressa por meio de símbolos”, explica a psicoterapeuta. Em outras palavras, é como se essas ocorrências, que podem ser simultâneas ou não, fossem sinais ou imagens que refletissem no exterior um estado interior. Ela própria vivenciou um episódio emblemático. “Estava num restaurante com uma amiga que vivia um momento de transição. Comentei que ela estava na fase do casulo e que dali sairia uma borboleta. Não é que nessa hora o inseto apareceu no local?”, conta, entusiasmada. Na ocasião, aquilo soou como uma confirmação, uma evidência de que a tal amiga estava no caminho certo. “Ficar atenta aos significados de eventos sincrônicos não é o mesmo que ser uma pessoa mística. Essa é apenas uma forma de dialogar com a alma. Afinal, as coisas não estão separadas. O mundo interno é tão real quanto o externo”, opina Cristina.
“Acreditamos que podemos controlar tudo, o que é uma ilusão. Quando compreendemos isso, nos frustramos profundamente”,Dulce Critelli, filósofa e terapeuta existencial.

Bagagem antiga

Na Índia, não é possível pensar a vida sem dela extrair significados transcendentes. O cotidiano na terra de Gandhi é marcado pela ideia de carma – palavra que vem de karman, “ação”, em sânscrito, antigo idioma dos indianos –, espécie de bagagem de talentos e limitações que trazemos de vidas passadas e que influenciam positiva ou negativamente nossas ações nessa encarnação.
Muitos associam tal “herança” a um fardo que temos de carregar com resignação. É bom esclarecer que o carma está longe de ser um veredicto contra o qual nada podemos fazer. “De acordo com as escrituras védicas, nada é imutável, tudo pode ser transformado, desde que haja um firme propósito e autoconhecimento”, declara o astrólogo védico Horacio Tackanoo, autor de Escrito nas Estrelas - Astrologia Védica no Dia a Dia (ed. Rocco).
Sob essa perspectiva, nossa missão na Terra é despertar a consciência para que possamos fazer escolhas mais sábias, capazes de transmutar essas energias, ou seja, minimizar os carmas maléficos e potencializar os benéficos. Assim, poderemos ascender espiritualmente. Segundo o astrólogo, há muitas formas de trabalhar essas cargas: aproveitando as informações concedidas pelos astros, praticando ioga e meditação, equilibrando os chacras, entoando mantras, se beneficiando do poder de cura das pedras. “Todas essas são ferramentas de transformação. Cada um decide se quer se acomodar ou mudar atitudes e hábitos”, desafia ele.
Nesse sentido, a sabedoria indiana nos reconhece como seres dotados de inteligência e discernimento e, portanto, capazes de exercitar plenamente o livre-arbítrio, termo que ocupou importantes filósofos ao longo da história. “Na Grécia Antiga, Aristóteles afirmou que os homens podiam escolher os meios para alcançar a felicidade. Já na Idade Média, Santo Agostinho defendeu que a vontade essencial pertence a Deus, mas que podemos segui-la ou não”, afirma Dulce Critelli.

Querer é poder?

Hoje em dia, prevalece a noção de que podemos criar a nossa realidade. “Na modernidade, esvazia-se a relação com a divindade. Sobra apenas o homem se expressando por meio de duas forças: a razão e o desejo. Obedeço ao pensamento ou persigo o prazer?”, aponta Dulce. O problema é que nessa busca deparamos com o imprevisível, o imponderável, e, então, percebemos que as rédeas da vida não estão nas nossas mãos. “Nós acreditamos que podemos controlar tudo, o que é uma ilusão. Quando compreendemos isso, nos frustramos profundamente”, comenta a filósofa.
Diante da decepção inevitável, sobretudo numa sociedade consumista que preza a saciedade imediata dos desejos, a solução para alguns é frear a máquina de produzir anseios. Dessa forma, evitam a dor da frustração. “Alguns indivíduos passam a não mais desejar. Apenas aceitam as coisas como elas são ou, então, se obrigam a querer aquilo que a vida traz, acreditando que Deus ou o destino assim determinou.”
Para Dulce, essa saída de emergência desemboca na supervalorização do “eu”, postura que, por sua vez, resulta em prepotência e isolamento. Um grande equívoco, já que, segundo ela, a transformação só se efetiva mediante a ajuda dos nossos pares. “Temos de estabelecer parcerias com as pessoas. Apenas por meio da colaboração podemos atingir nossos objetivos”, propõe a filósofa. Esse pacto, ela avisa, não só dá trabalho, como exige paciência e humildade. “Temos de ter determinação para nos mantermos em nossos propósitos e flexibilidade para lidar com os imprevistos, e também com a aceitação ou recusa do outro”, pondera. Melhor assim. Afinal, por acaso ou por uma série de coincidências armadas pelo destino, estamos vivas e devemos continuar alimentando nossos sonhos e desejos.

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