Cientistas costumam dizer que a moderna sociedade industrial, impondo às pessoas a busca da mais selvagem competitividade induzindo ao consumismo ilimitado, é a grande responsável pela companhia mais fiel que temos atualmente: a permanente ansiedade.Na visão desses autores, somos ansiosos porque vivemos o tempo todo entre dois pólos contrários: ir ou não ir, fazer ou não fazer, querer e não poder, dever e não querer, poder e não dever.
Algumas pessoas administram melhor esses conflitos íntimos e, tomada uma decisão, saltam todos os obstáculos e vão em busca do seu Santo Graal, que tanto pode ser o dinheiro quanto a transcendência.
Outras, por não contarem com sólida estrutura psíquica, tornam-se excessivamente ansiosas e caem em estado de forte agitação e grande instabilidade emocional. São viciadas em ansiedade, como se fosse droga, e já não saberiam viver sem ela.
A descrição médica da ansiedade inclui dezenas de sintomas, que vão da tensão muscular à inquietude e à sensação de falta de ar, da impaciência difusa à irritação permanente, passando por náuseas, vômitos, diarréias e outros distúrbios que nada têm de simpáticos.
Embora os especialistas afirmem que basta a pessoa fazer parte da sociedade atual para se deixar tomar pela ansiedade, o estudo da História demonstra que há mais ideologia que ciência, nessa definição do século como Era da Ansiedade.
Aceitar as explicações dos pesquisadores profissionais significaria admitir que, em outros tempos, a ansiedade jamais visitou os seres humanos. Entretanto, basta reler a tragédia de Hamlet para constatar que o demônio da ansiedade é tão antigo quanto o próprio inferno.
Em momentos de grandes mudanças, quando as verdades antigas começam a desmoronar e já não há mais um caminho confiável para as verdades nas quais acreditávamos, tudo balança. E, mesmo que não caia, a alma dos humanos se vê minúscula, diante do porte das ameaças.
Embora nosso tempo seja assim, ameaçador até para os mais sólidos, não é a primeira vez que a humanidade passa por isso. Pense, por exemplo, na Renascença, com a derrubada de dogmas e certezas que antes pareciam intocáveis. Deve ter sido um festival de diarréias.
Na realidade, esse mal-estar difuso sempre esteve presente na alma humana, desde os tempos em que vivíamos nas arvores. A diferença é que as transformações de hoje são mais freqüentes e seu impacto é maior. Temos a impressão de que, ao acordar amanhã, poderemos nem reconhecer o mundo em volta. Ou que nem haverá mundo para se reconhecer.
O princípio da incerteza migrou da Física para a Sociologia e daí para a Filosofia, como parte de uma estratégia de sobrevivência a qualquer preço. Por isso, viver na ansiedade e com ansiedade passou a ser quase destino, uma condição natural do homem moderno.
Resumindo os fatos, tomar a ansiedade como destino inapelável é sinal de que a humanidade está mais doente do que se poderia pensar. E ainda nem sabemos ao certo quantos e quais são os efeitos da ansiedade no corpo e na psique das pessoas, mas existe a suspeita de que ela, por ser uma fonte global de desarmonia física e psíquica, abre caminho para certos tipos de câncer. (Tião Martins)
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