Lembra-me cartas de frases curtas. Nada de embromação. Não cartas de amor, as comerciais. Não cartas apaixonadas. Há algo meio invasivo. Parece fazer necessidade de porta aberta. Um sabe, todos sabem. Compartilha-se. Segredos não se guardam. Confidência é mundo. Oi fulano, oi beltrano. Nada demora mais do... já foi. A gente vaza. Somos todos água. Esse tal de Facebook não é a lição de cartas que aprendi no carro dos Correios, anos cinquenta, nas asas da Central do Brasil. Minha mãe, operária. Íamos a Diamantina. Eu preferia os sacos de lona, abarrotados de cartas. Que notícias? As tristes, as longas, as lindas? Comentei com Zé Lasquinha, o carteiro de ferro - no caso, do trem de ferro - que eu lia as confidências missivas por sobre os malotes em que dormia. Ele ria. Zé Lasquinha ganhou um leitão assado na estação de Rodador, pois levara boas novas. Requentava a marmita no fogareiro a álcool e me servia comida. Era um tio bom. Amigo, irmão de meu pai.Adicionado lembrei-me dessas pequenas histórias que permeiam a incipiência. Logo eu viria a namorar as meninas e a escrever cartas demoradas e cheias de intenções (algumas boas e outras nem tanto). Uma delas se chamava Mary, de Diamantina, e as cartas eram mais demoradas do que a Maria Fumaça, subindo cansada a Serra da Tocaia. Se é tempo desse tal de Facebook eu já teria dito: Mary, vc Tb topa? Td? E nem nos teríamos purificado de espera e sonho. E as cartas seriam papéis no tempo, vagos. O tempo desse tal de Facebook nos faz sequer se ver, pois já é muito essa coisa fake, meio mistério/ cocô - com circunflexo -, e é tudo inteiramente ou mentira.
Nas cartas enviávamos fotos, de nós mesmos, surradas de distância, porém com a cor ausente da verdade. E as moças as perfumavam, só para nós, com o aroma murmurado de coisas íntimas. Tudo tinha aura de tangível. Letras eram perfis, trejeitos, sorrisos, gargalhadas de alegria, desvelo. Nesse tal de Facebook rir é rsrsrsrsrsrsrsrsr. Gargalhar kkkkkkkkkk. Sendo uma corruptela o hehehehehe! Somos, pois, elipse. Não mais as cartas laivadas em pranto, somente vingadas nas férias escolares, mercê de beijos ligeiros. Ou na matinê de domingo, quando a mão desavisada - porém ativa - se debruçava displicente no colo da moça, como se a buscar segredos. Esse tal de Facebook faz ficar tudo ligeiro. E é bom Tb. Blz. Uma 9dade embriagadora. Até os dinossauros - eu - se adaptam. É preciso falar o tempo. E dada a velocidade, a nova carta de amor é um tratado de sensações, esperteza literária e gozo. O de sempre. Porque, afinal, além de todas estas alucinações cibernéticas persiste o amor. O amor e a necessidade terminal que ele tem de se gritar.
(Eduardo Lima)
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