quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Uma rosa vermelha

Romântico à moda antiga, o jornalista Olympio Coutinho defende a tese de que os humanos em geral (e os tímidos em particular) desperdiçam um milhão de oportunidades de amar intensamente.
- Ninguém que eu conheço pergunta a si próprio se deve ou não deve viver. Mas, na hora de abraçar o amor, as pessoas mergulham na dúvida. Vou ou não vou? Vivo ou não vivo essa paixão? Quer coisa mais idiota?
Noite dessas, no Armazém Árabe, apareceu um jovem que se deixou seduzir por essa disponibilidade olimpiana para o amor e quis saber mais. E Coutinho, à moda de Sócrates, sintetizou a tal ponto os seus ensinamentos que atingiu a limpidez do diamante, resumindo tudo em dois verbos:
- Sentiu, faz.
- Tudo? - perguntou o cara.
- Tudo. Aprenda a confiar mais nos seus impulsos que nos seus medos - recomendou o poeta de Ubá, com a segurança de quem não teme o perigoso exercício de viver.
Como o interrogatório prosseguiu durante horas, foi impossível captar todos os ensinamentos. Mas ficaram frases soltas, que um dia vão aparecer nas suas trovas. Ouvimos quando o jovem discípulo perguntou se é brega esperar alguém no aeroporto com uma rosa vermelha na mão.
- Brega é duvidar, sentir vergonha. Brega é ter medo de amar ou de confessar que ama. Se você sente que deve fazer, faça. Leve até um jardim inteiro para Confins, Congonhas ou Tom Jobim. Se você ama, tudo é permitido.
E, na noite fria e tocada pelo vento de julho, apresentou de novo a síntese de todas as sínteses:
- Sentiu, faz.
Tem razão o poeta e trovador, que faz do romantismo uma defesa contra a idiotice e o oportunismo medroso do nosso tempo. É claro que, sendo um sábio, deve ter suas regras e limites, mas não imita essa gente que carece do parecer de analista para saber se deve fazer isso ou aquilo.
Olympio não é do tipo que dá tapinha nas costas de gente medíocre e bem comportada. Por isso, na lição seguinte, radicalizou:
- Não existe padrão de normalidade, em matéria de amor. Toda transgressão decidida a dois é rara, maravilhosa e cheira bem. Normalidade e padrão são coisas de psicopatas, que criam regrinhas para tudo. E seguem todas as regras, como determina o figurino. Mas você sabe quem inventou esse figurino?
O carinha balançou a cabeça.
- Seu bisavô, sua bisavó, seu pai e mais um milhão de caretas que passaram pelo mundo antigo, impondo e seguindo leis ridículas, venenosas. Você pensa que é moderninho, não pensa? Mas, na realidade, não passa de fantoche, escravo do passado.
Mais uma vez, o poeta acertou a mão. Se catalogarmos as regras, conveniências e impedimentos que nos impuseram, veremos que são todas inimigas da emoção e da verdade humana. Criadas há séculos, estão impressas em nossas pequenas mentes distraídas e se tornaram mandamentos inflexíveis.
No final da noite, o aprendiz rompeu o seu longo silêncio:
- Estou entendendo. Pior do que ser brega é o arrependimento de não ter sido. Amanhã cedo, em Confins, vou esperar minha gata com uma rosa vermelha na mão.
Quando ele se foi, o poeta confessou:
- Mil vezes eu quis fazer isso e tive vergonha. Hoje, a vergonha está morta. E a moral que se dane. Estou livre e minha única lei é "sentiu, faz". (Tião Martins)

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