sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Ouça seu coração







A morte, que ele sempre tratou como sua mais sábia companheira e aliada, chegou cedo demais para Steve Jobs, o homem que inventou o século XXI. Mas o próprio Jobs não diria que partiu antes da hora, pois sempre olhou nos olhos da morte e nunca pareceu temê-la. Ao contrário, fez desse olhar um símbolo da liberdade de pensar, criar, inovar e correr riscos que outros julgariam desnecessários, inúteis.
Mais que qualquer estadista ou pensador, Jobs revolucionou a cultura da maioria dos países, ensinando - pelo menos aos que o ouviram - a ética da qualidade e a prática da confiança na capacidade das pessoas, quando sonham, vivem e trabalham em liberdade.
É lamentável que nem mesmo em seu país, esses orgulhosos e arrogantes Estados Unidos da América, ele foi ouvido por aqueles que tomam decisões sobre a guerra e a paz, o fortalecimento da democracia e o papel que a liberdade deve ter no conjunto das relações internacionais.
Se os eleitores o ouvissem, não teriam votado em George W. Bush, analfabeto moral e político que conduziu o país e o mundo ao atoleiro de uma guerra, com argumentos falsos e pretextos inventados nos subterrâneos da Casa Branca e vendidos à Europa como oportunidade única de salvação do estilo ocidental de vida.
Se ouvissem Jobs, os banqueiros norte-americanos não teriam lançado o país na maior crise econômica de sua história e nem produzido tanto desemprego e desespero. E os industriais não continuariam ganhando bilhões de dólares com a fabricação e a venda do lixo que chamam de alimento e das misturas inconfessáveis que apelidam de refrigerante, gerando índices de obesidade como não se vê em nenhum outro país.
Os textos em que Jobs definiu sua visão de mundo, da vida, da indústria, dos seres humanos e da beleza são falas quase poéticas, se é que não foram também proféticas. Alguns atribuem isso à sua simpatia pelo budismo e pela filosofia grega, e ele próprio alimentava essa crença, ao dizer que trocaria sua fortuna por uma tarde de conversa com Sócrates, o grego que ensinou a humanidade a pensar.
A América está mais pobre, agora que Jobs se foi. E talvez seja tarde demais para milhares de pessoas que compram hoje os exemplares de sua biografia, com a esperança de reviver o gênio que não ouviram enquanto estava vivo. Os humanos são assim, surdos e retardatários. E a grande massa dos norte-americanos é um pouco pior.
Refletir sobre as ideias que nos legou, como nos parágrafos que se seguem, é nossa homenagem tardia a Steve Jobs.
"Seu tempo é limitado, então não o desperdice vivendo a vida de outra pessoa. Não fique preso pelo dogma - que é viver pelos resultados do que outras pessoas pensam. Não deixe o ruído da opinião alheia afogar a sua voz interior. E o mais importante: tenha a coragem de seguir seu coração e sua intuição. Eles de alguma forma já sabem o que você realmente quer se tornar. O resto é secundário."
"Lembrar que morrerei em breve é a ferramenta mais importante que encontrei, para me ajudar a tomar as grandes decisões na vida. Porque quase tudo - todas as expectativas externas, todo o orgulho, todo o medo do constrangimento e da falha - essas coisas simplesmente desabam, diante da morte, deixando apenas o que é realmente importante. Lembrar que se vai morrer é a melhor forma que conheço de evitar a armadilha de pensar que se tem algo a perder. Você já está nu. Não há razão para não seguir seu coração. Continue faminto. Continue tolo". (Tião Martins)

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