segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Mais que perfeito




As maiores riquezas naturais do mundo ainda estão no Brasil, proclamam os patriotas exaltados. Mas até quando será assim, se boa parte delas já se foi e nunca mais voltou e o resto está indo embora cada vez mais depressa?
Nesta nossa democracia, os homens públicos federais assaltam o povo de três formas: elevam impostos, aumentam seus salários e metem a mão nos generosos cofres do governo, em concorrências decididas na véspera.
Temos os políticos mais caros, mais ricos e mais improdutivos do planeta. Se quiser mais informações, pergunte aos bancos suíços. Eles não vão responder, claro, mas admitem que nos últimos anos voltaram a crescer feito chuchu na cerca.
Quase tudo que sai daqui está lá, sob a proteção do sigilo bancário e longe dos olhos de curiosos como nós. Enquanto você trabalhava, os companheiros brincaram de esconde-esconde. E esconderam tudo. Pelo andar da carruagem e a pequena faxina que dona Dilma foi forçada a fazer, há o risco de que falte cofre na Suíça para guardar o dinheirinho dos nossos "estadistas".
Você é mesmo um sujeito generoso. Tanto que, em 2012, vai trabalhar 148 dias só para pagar impostos (o cálculo é do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário).
No mensalão, milhões de reais deslizaram para os bolsos dos deputados modelo flex. E nenhum foi preso ou devolveu um centavo, porque o processo dorme o sonho dos justos, nos escaninhos do Supremo. E ninguém sabe dizer quanto custou.
Aliás, por mero acaso, a maioria dos ministros do Supremo foi escolhida e nomeada pelo mesmo governo do mensalão. Só sabemos que custou caro e que pagamos a fatura.
Aqui, tudo é perfeição, coisa pra ninguém botar defeito. Os segredos ficam em casa, em família, até que um jornalista intrometido ponha a boca no mundo. Aí, o governo reabre a discussão sobre como cercar a imprensa.
A Esplanada dos Ministérios abriga um bando de gente da maior seriedade e elegância. São senhoras e senhores que só admitem brigar quando se trata de decidir quem leva a parte do leão. E você, que é manso cordeiro, nem precisa se preocupar, pois não faz parte da turma.
Mas não se atormente. Está tudo nas mãos de gente boa.
De Sarney a Tiririca, o Brasil é hoje uma péssima comédia, com os mesmos atores de sempre e um texto chato e repetitivo. Mas você tem o sagrado direito de escolher: pode rir ou pode chorar.
Na África e no Oriente Médio, o povão está vencendo o medo que sentia dos ditadores e indo às ruas, para exigir verdade, democracia, justiça e liberdade. Enquanto isso, usamos a nossa liberdade para eleger José Sarney e sua amada família.
Sempre se disse que o brasileiro não tem memória. Mas isso só vale para nós, da planície. No Planalto, ninguém esquece a senha que dá acesso aos cartões corporativos e aos depósitos na Suíça. E por falar em memória, que fim levou o fabuloso pré-sal, que antes das eleições presidenciais seria a salvação da pátria? Vai ver que o gato comeu. O gato come tudo.
Mas temos um motivo de orgulho: o Brasil é um crime perfeito, como não existe em lugar nenhum. Tão perfeito que os autores são sempre os mesmos: eles.
E as vítimas somos sempre nós. (Tião Martins)

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