segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Próspero espírito novo




"Livra-nos do outro espírito, o de porco, dos dias de dor e escárnio, dias de matar e morrer"

O espírito de fim de ano é muito bonzinho, como é bonzinho o espírito genérico do que está preste a findar e ressurgir, o que mora aqui e acolá e vai brincando com o coração da gente.
Este tal espírito novo não se importa com o motorista que esbraveja no trânsito. Nem se importa demasiado com a chuva.
O referido é sentimental. O mesmo espírito, que já começa a dar beijos de adeus e boa vinda e alisar nossos cabelos, tem o cacoete de indultar pecadores. Vai subir uma ladeira, lamber um picolé, se deitar numa cama e assar um pernil magro.
Mesmo espírito vai abrir uma porta e fazer-nos crer, ainda, na lei cega e igualitária.
O espírito novo não tem bússola ou mira, atira para todo lado e, mais hora menos hora, acerta a gente. Acerta até gente que andou de cara amarrada ano inteiro e ainda cometeu deslizes veniais como o esquecimento e a antipatia. O espírito da novidade vaga por aí caçando gente triste, que já crê em pouco. Mesmíssimo e peregrino espírito que embala sonhos e impõe estranha aridez aos que se cansam ligeiro.
O espírito traquina não se faz de rogado e até conseguiu um noivo para a moça esquecida, cantando ainda uma canção com voz de amante desafinado.
Este tal espírito do novo nos põe em busca de um presente que não vem, ou pelo qual alguém sempre espera lívido de esperança. Faz-nos menos azedos, menos mal cheirosos. Livra-nos do outro espírito, o de porco, dos dias de dor e escárnio, dias de matar e morrer, de saltar sobre o branco e suja-lo de raiva.
O espírito novo é bem aventurado, uma graça neste mundo de pedra. Com o espírito novo tão solto é provável que possamos esquecer o grande roubo oficial e o tiro a esmo.
O espírito novo é surdo, cego e mudo, embora seus ouvidos a tudo ouçam, seus olhos a tudo vejam e sua voz seja uma canção de despertar - ou de adormecer, conforme queiram.
O espírito, o mesmo que mora em nós e no alto da montanha, é despojado, não tem bens, mas existe na ausência inteira, indiferente e solidário, capaz de enxugar as lágrimas e banir das bocas até blasfêmia.
O novo espírito, que se renova todo o tempo na eternidade do tempo, torna-nos mansos, pacientes e nem o caos, os dias suarentos ou a chuva descabida na geografia das cidades, fazem nele a ira. Governo não faz raiva, nem time, os juros, a escalada do crime, a moça fútil, nada faz rugir o bicho nosso, tão feroz nos dias afastados dos sonhos.
Com o espírito do novo por perto, brincando de esconde-esconde com as sensações da gente, tudo é perdoável, mesmo ofensa.
Estamos, vejamos pois, sob a tutela do que é nada e tudo pode. E até as dores se recolhem na rapidez do seu chegar.
'E ao tomar a gente o tal espírito pode ser asa ou túnica ou aura: vazio cheio. Indecifrável faz-nos celebrar mais uma vez a vida, brandir no vento uma arma em puro traço e almejar.
Bom mesmo é aproveitar a presença dele. E permitir, momentaneamente aliviados, o que temos sempre medo de nos permitir.
Ser feliz e sonhador - nem que seja pouquinho e rápido - é mais doce e construtivo do que um lapso de amargura. (Eduardo Lima)

Nenhum comentário:

Postar um comentário