A elevação na glicose no sangue talvez seja a característica mais marcante da diabete. Tal fato acabou por selar o regime dietético dos diabéticos: nada de açúcar e pouco amido. O amido, como muitos sabem, não é nada mais que um “drops” de glicose. No nosso organismo ele é quebrado em moléculas de glicose. Meu objetivo hoje é tentar demonstrar como se faz a relação da glicose com a diabete.Busquemos o exemplo de uma fábrica de sapato. Suponha você que a esta fábrica cheguem continuamente os insumos necessários para a produção do calçado. Cola, couro, solas de borracha, linha e tudo o mais. Nesta fabrica existe apenas um funcionário que orienta a distribuição destes insumos de forma a proporcionar a cada artesão o que precisará para sua produção diária. Num belo dia o funcionário que faz tal trabalho não comparece e ninguém está habituado a substituí-lo. A produção cai vertiginosamente; esgotaram-se os insumos dos artesãos e o pior, o curtume continua a entregar o couro. Você pode imaginar a bagunça: couro saindo pelo ladrão, artesãos desorientados e produção de sapato em queda livre. Algum apressado ao visitar tal fábrica pode pensar que o couro é o problema; com tanto couro ocupando o espaço não há como trabalhar. É claro que o problema não é o couro.
No nosso corpo fabricamos diferentes produtos continuamente. Assim como em qualquer fábrica, temos os insumos que nos são fornecidos pela alimentação ou pelas reservas que fazemos para o período de jejum. Na diabete a situação se assemelha àquela descrita na fábrica de sapato: existe um acúmulo enorme de glicose e todos os produtos que vão depender de aminoácidos vão estar profundamente alterados. A insulina funciona como aquele trabalhador que faltou ao serviço – ela orienta o uso adequado dos insumos. Na sua falta o organismo desesperado usa todos os seus artifícios para produzir glicose, pensando que a falta do produto final se deve à falta o insumo principal.
Todo este mecanismo é regulado pelo sistema nervoso através de uma estrutura conhecida como hipotálamo. Ali vão ocorrer os ajustes, porque ali se concentram os mecanismos que monitoram a situação no sangue e que zelam pelo bem estar de todo o organismo. Nosso organismo é uma sociedade muito bem organizada. Cada célula, em cada tecido, tem sua função determinada e deve ser abastecida com tudo que precisa para funcionar adequadamente.
A produção excessiva de glicose tem conseqüências graves. Grande parte se originará da quebra das proteínas musculares. Voltando à nossa comparação com a fábrica de calçados, é como se o couro acumulado em excesso perdesse suas características e fosse descartado sem uso.
Quando uma criança tem diabete, geralmente ela decorre da falta de insulina. Quando um adulto, geralmente obeso, apresenta diabete, ela pode se dever a vários problemas: pode ser pela falta de insulina, pode ser pela dificuldade da insulina em fazer seu efeito. Voltando à fábrica, é como se alguns artesãos não conseguissem produzir o esperado e a matéria prima se acumulasse exageradamente.
O número de casos de diabete no adulto tem aumentado muito, o que não é nada bom. A diabete, por comprometer a produção de várias substâncias no nosso organismo, acaba por determinar o surgimento de vários problemas. Uma forma de se evitar suas complicações é seguir adequadamente o regime, mesmo sabendo que a glicose ou um outro açúcar qualquer não é o vilão principal. Quando os níveis de glicose estão normais significa que a fábrica está produzindo bem, o organismo está trabalhando em harmonia.
Num futuro, que espero esteja próximo, o tratamento da diabete deverá mudar. Na criança, o regime não será tão severo com o açúcar, e no adulto os mecanismos com disfunção serão detectados e terão um tratamento específico. A perda de peso, no adulto obeso, é muito importante, por diminuir o trabalho do metabolismo como um todo. Até então, manter uma alimentação adequada, usar os medicamentos regularmente e praticar atividade física são aspectos essenciais para conciliar uma boa vida com a diabete. (Luiz Antônio F Paulino)
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