quinta-feira, 4 de julho de 2013

Povo

Manhã de sábado. Menino de 5 anos conversa com o pai na varanda de seu apartamento em bairro nobre de Beagá... A vista é como a de um pássaro voando alto, bem alto.
Onde fica o povo, Pai? Ali, ó, naquele morro, naquele de lá e em muitos outros lugares da periferia.
Você não é povo? Não, filho, não sou. Já fui. Nasci no interior, numa família pobre. Minha mãe morreu muito cedo e meu pai veio com os cinco filhos para Belo Horizonte tentar a sorte, Mas logo depois ele também se foi. Batalha pesada, mas vencemos.
Um dia você acordou e não era mais povo? Foi assim? Não. A passagem dói lenta. Entrei na escola, depois na universidade e me tornei um advogado. Você tem a foto de quando era povo? Tenho uma, no Parque Municipal. Era o programa de todo domingo. De graça, lógico!
Pai, me leva no povo? O quê? É, pai, eu quero ver como é que El é, de pertinho. Tá, eu levo. Vamos ao ponto de maior concentração de povo por metro quadrado – o Centro da Cidade.
Foram de ônibus, desceram no meio da muvuca. O pai apontava, como um guia. – Ali, ó! O pipoqueiro, o Office-boy, as moças no balcão da lanchonete, está vendo? O policial, a mãe com quatro crianças no ponto do ônibus. Olha só, o senhor de cabeça branca com o carrinho lotado de caixas de papelão; o vendedor de DVD pirata, o casal de namorados se beijando, os adolescentes de uniforme e mochila, o engraxate, o moreno forte com o menino no colo, o gari varrendo a rua, o homem de muletas, os motoboys em movimento, estacionando, os limpadores de vidraças no andaime. É tudo povo, pai? É, sim, filho.
Hoje vamos comer só o que o povo vende na rua, tá? Diz o pai. Pipoca, cachorro quente, amendoim torrado, água de coco, milho verde, picolé...
Assim, pai e filho cumprem o roteiro gastronômico das ruas, sentam-se na Praça Sete, compram anel de hippie de caveira, doam moedas pra estátua viva se mover, ouvem música boliviana, entram em roda de capoeira. E após horas de “pop tour”, exaustos, tomam um táxi e fazem o caminho de volta pra cãs. Calados, até que o silêncio é quebrado: você estudou pra ser advogado, né, pai? Foi. E os seus irmãos, pra serem médico, engenheiro, professor, NE? Isso mesmo, filho! Eu quero estudar pra ser povo, viu? (Marcelo Xavier)
               

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